15 de fevereiro de 2011

"Isn't it good, Norwegian Wood?"

A obra do escritor japonês Haruki Murakami é imperada pelo surrealismo. Norwegian Wood (1987) é a exceção, e curiosamente, foi este livro que o projetou para o estrelato*. Em suas páginas não há aparições bizarras de homens-carneiros, diálogos com gatos ou realidades alternativas. Sua história se aproxima mais do gênero dos romances de amadurecimento, das estórias de amor e é um retrato juventude de Tóquio dos anos 60, com seus protestos  vazios de sentido (sob a ótica do narrador) e banalização sexual.

Se seu teor mais realista diferencia o romance de seus "irmãos", isso não chega a o tornar anti-murakami. Ele carrega outros traços comuns a todos os livros do escritor: sua narrativa é envolvente, sensual, repleta das clássicas citações de literatura e cultura pop. E se Norwegian Wood é o romance mais simples de Murakami, por isso mesmo ele é uma boa introdução ao autor. E é também uma boa maneira de se conhecer uma faceta da sociedade japonesa, com sua descrição de comportamentos e ambientes, pois embora Murakami rejeite a denominação de "autobiográfico", ele assume que tenha se baseado em observações pessoais de seus anos como universitário. Aliás, algumas semelhanças entre o criador e o protagonista são irrefutáveis, ambos cursaram Drama em Tóquio, enquanto se sustentaram trabalhando em uma loja de discos e ambos compartilham uma paixão por literatura ocidental do século XX.

Os capítulos são compostos pelas reminiscências de Toru Watanabe, evocadas quando já maduro, ele escuta a canção dos Beatles que dá nome ao livro, e ao saborear estas lembranças, experimenta uma forte sensação melancolia.

Melancolia porque seu período como universitário se inicia após o suicídio de seu melhor amigo e termina com um segundo suicídio, e porque a época foi marcar por relações conturbadas com duas mulheres. Entre encontros casuais com desconhecidas, Watanabe se envolve com a expansiva Midori, e é totalmente absorvido pela autodestrutiva Naoko. Cada uma personifica um oposto: enquanto Midori se responsabiliza pelos doentes de sua família, a própria Naoko sofre de um problema psiquiátrico; a primeira é carnal e palpável, a segunda quase etérea. Apesar disso, ambas apresentam a ele suas fragilidades e ao se tornarem dependentes de sua proteção, em diferentes intensidades, elas o consomem.

Embora os personagens tenham cada um seu grau de distúrbios e sintam-se deslocados de seu meio, os diálogos francos os aproximam do leitor, seja ele jovem ou tenha ele o sido algum dia. Junto com a narração facilmente assimilável e a história deliciosa, eles tornam livro um clássico moderno com reflexões sobre a morte, o amor, a alienação e a juventude.

* Infelizmente, Murakami não é muito conhecido no Brasil, mas em seu país de origem ele é considerado um ídolo pop. Em países europeus, como França e Portugal, ele também é bastante lido.

3 comentários:

  1. Olá, Rafa, não conheço esse escritor e, assim sendo, também não li nenhuma obra de sua autoria. No entanto, gostei muito das suas perspectivas sobre ela.

    Ah, obrigada pelo comentário no "Tudo numa coisa só"!

    Beijos, querida!

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  2. Também não conheço tal autor, mas suas palavras realmente me deixaram instigada a ler pelo menos de suas obras!

    (Você escreve MUITO bem! *-*)

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  3. Obrigada pelos seus comentários, meninas! (E não precisa agradecer, Rafa, seu post foi ótimo e merecia comentário)

    *tietagem* Murakami é um excelente escritor, se vocês tiverem a oportunidade de ler algum de seus romances, aproveitem. *tietagem*

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